
NOITE PONTO SOM - Como surgiu seu interesse em seguir a carreira de cantora?
Juliana Ribeiro - Sempre tive ligação com a arte. Cantava no coral da Universidade Federal da Bahia (Ufba) aos 16 anos e pensava em fazer vestibular para teatro. Em 2001, quando recebi o convite para ser vocalista da Zaccatimuana (grupo baiano que faz uma fusão de ritmos e sonoridades, dando uma roupagem nova a canções de compositores já consagrados da música popular brasileira), é que a música se tornou concreta para mim. A partir daí comecei a fazer aulas de música e busquei formação técnica em canto, além das extensões em canto popular na Universidade de Campinas (Unicamp) e em São Paulo.
NOITE PONTO SOM - Do que é feito o samba? Já que a definição de samba vincula-se fortemente à definição de outro gênero musical, o choro.
JULIANA RIBEIRO - Este nome na verdade é uma provocação, não me proponho responder esta pergunta. As pessoas que assistem meu show saem de lá com outra opinião a respeito do samba e da sua construção histórica. Forneço matéria sonora e prefiro que os fãs tirem suas próprias conclusões. Porém “De Areia” – nome do meu segundo show-é a resposta poética para esta pergunta, pois foi no barro do chão dos terreiros, casas de samba, e na areia dos sambas praieiros que encontrei um novo caminho para meu trabalho.
NOITE PONTO SOM - Como você avalia a diferença entre a música de samba e choro? Já que, o samba se distingue do choro por utilizar, de modo mais incisivo, outros instrumentos de percussão como prato e faca, agogô, cuíca, surdo, chocalho, tamborim, caixa de fósforo e outros, quase sempre ao sabor de preferências pontuais e da disponibilidade dos tocadores...
JULIANA RIBEIRO - Primeiramente o choro não se constituiu como gênero musical. Na sua construção histórica ele não nasceu como um gênero (os músicos faziam acompanhamento para os cantores da época), mas se constitui como um, com o passar do tempo. Era uma formação popular de músicos que acompanhavam os cantores solistas e tinham um modo “chorado” de tocar - Pixinguinha que o diga. O samba se constitui de outra maneira; era uma manifestação cultural, uma reunião de amigos na casa das Tias baianas entre os séculos XIX e XX, lá no Rio, um estilo mais livre onde as pessoas brincavam, trazendo à roda a memória das tradições africanas de infância. O uso de pratos, faca, vem justamente deste clima de intimidade, onde os utensílios da cozinha eram utilizados para fazer música.
JULIANA RIBEIRO - Como formas de expressão artística-musical diferenciadas, sem adequação valorativa; ambos são maravilhosos e necessários a construção da música popular no Brasil.
NOITE PONTO SOM - É possível pensar em sambas gravados com arranjos orquestrais?
JULIANA RIBEIRO - Claro que sim! Era o que se fazia nos anos 30 à 50 no Brasil. Haja vista, maestros como Radamés Gnattali, Luciano Perrrone, entre outros que criavam arranjos com uma orquestra brasileira.
NOITE PONTO SOM - Como você compõe? Faz primeiro a música ou a melodia? Quem são seus parceiros? Existe algum ritual na hora de compor..... ou rola jam sessions com os músicos?
JULIANA RIBEIRO - Bom para mim que sou cantora, a melodia vem sempre primeiro. Depois a letra vem chegando através de imagens melódicas. Meus parceiros em geral são bons de harmonia. Mas não há fronteiras para parcerias, cada parceiro contribui de forma diferente. Com Gil Meireles (professor de música e que toca violão, piano e baixo acústico) sai de um jeito, com Tito Fukunaga (professor de flauta do Teatro XVIII e percussionista) de outro.
NOITE PONTO SOM - Agora você está trabalhando o próximo disco, certo? Fale um pouco sobre isso?

NOITE PONTO SOM - Vamos falar de música em Salvador. Dá para viver apenas cantando?
JULIANA RIBEIRO - Acho importantíssimo dignificar o trabalho artístico. Eu como cantora me vejo como uma dentista ou professora, preciso viver bem do meu trabalho e não sobreviver dele. Necessário sim, agregar qualidade a tudo que se faz e neste quesito sou perfeccionista. Além disso, sou mestranda do Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal (Facom), onde estudo o samba, suas origens e trajetória.
NOITE PONTO SOM - Ok vamos dar espaço ao que é bom - o que você tem ouvido? Quem está com bom trabalho no mercado baiano em sua opinião?
JULIANA RIBEIRO - Realmente tenho um espírito velho... O que pesquiso e canto é de coração o que mais gosto de ouvir. Neste momento minha maior referência é a Clementina de Jesus a quem estou pesquisando. Tem trabalhos maravilhosos, com parcerias diferenciadas como o Rosa de Ouro, João da Baiana e até Araci Côrtes; é uma diva!
NOITE PONTO SOM - O que mais lhe agrada e desagrada atualmente na música brasileira?
JULIANA RIBEIRO - Adoro a multiplicidade de influências, o caldeirão sonoro que acontece neste país. Quanta coisa pra conhecer, até me assusta! Não tenho nada contra gêneros musicais específicos, mas sim contra a banalização e agressão que é praticada à mulher em determinadas letras. Acho um retrocesso para as relações humanas e às trocas sociais pensar a mulher como um objeto coisificado. É preciso pensar criticamente o que se canta, pois a manutenção deste status é colaborar com o preconceito.
Crédito das fotos - Marcelo Mendonça
Ouça a cantora em - http://br.myspace.com/julianaribeirocanta