NOITE PONTO SOM - Quando se deu o seu primeiro contato com a música?
Cássio Nobre – Aconteceu quando cheguei à Bahia (1987), em pleno carnaval. Nunca tinha visto nada igual antes, pois, sou do Maranhão e tinha uns nove para dez anos. Fiquei impressionado com a festa. Em seguida, eu e meu irmão ganhamos um violão de meu tio. Então ele começou a tocar. Eu fiquei curioso com o som queria também tocar, mas não pegava no instrumento. Nesta época, meu irmão estava muito empolgado com a música, assim me interessei em tocar bateria, pois curtia o som da percussão. Ele comprou uma guitarra, mas não levou a coisa muito adiante. Parou de tocar. Os instrumentos ficaram engavetados e fui pegando. Com uns doze anos comecei a tocar violão e guitarra. Aprendi algumas coisas com meu irmão, mas evolui rápido. Depois passei a tocar teclado e a estudar teoria musical sozinho. Aos quatorze anos comecei a tocar contrabaixo sendo este um instrumento que me acompanha até hoje na minha trajetória de músico.
NOITE PONTO SOM – Você ouvia o quê nesta época?
CÁSSIO NOBRE - No início ficava mais curtindo a música. Mas passei a escutar muita coisa que meu irmão ouvia como o rock inglês (Beatles, Smiths, Dire Straits, etc.). Depois comecei a escutar música brasileira e lembro-me que na época rolava muito Luiz Caldas, Banda Reflexu’ s e Olodum. Ouvi também muito rock pesado como Iron Maiden, Rage Against the Machine, Faith no More... e, ao mesmo tempo, curtia música brasileira como Mutantes e Secos Molhados. Sempre tive afinidade com bandas de rock que misturam o som a ritmos brasileiros. Eu curtia o rock gringo, porém, sabia que era uma coisa distante, então queria sempre tocar algo mais brasileiro.
NOITE PONTO SOM – Quando rolou de montar a primeira banda?
CÁSSIO NOBRE - Logo depois dessa fase me juntei com o amigo Daniel Lage, que estava no mesmo processo de aprendizado que eu. Tínhamos os mesmos interesses musicais; pois ouvíamos e tocávamos as mesmas coisas, assim montamos à primeira banda. Ela se chamava Os Bazófios. Daniel Lage foi o meu primeiro parceiro musical. Além de mim, a banda era formada por Nikima (ex-vocalista da banda Lampirônicos), Daniel e um batera que sumiu do mapa. Todos estudavam no colégio Social, (ISBA, em Salvador), e o primeiro show ocorreu lá numa Mostra de Som. Depois disso foram surgindo outros projetos. E aquela coisa de fazer som sem compromisso foi rolando rotineiramente e virando banda. Aconteceu assim com o grupo Volume Zero (1997-1999), que era um som instrumental. Nesta formação tinha eu, Daniel e o baterista Maurício Mão de Onça. E como sempre toquei contrabaixo e guitarra tocava um ou o outro instrumento em bandas diferentes. Lembro que montei uma banda chamada Dama de Cópula (1995-1996), e tinha um cara, que também fazia o mesmo que eu. Então ficávamos revezando de instrumentos durante os shows.
NOITE PONTO SOM – A sua aprendizagem musical se deu de que forma?
CÁSSIO NOBRE – Eu tinha uma coleção de vinis e lembro que meu primeiro disco foi Thriller de Michael Jackson. Curtia muito o solo de guitarra dessa música. Não sabia quem estava tocando, mas gostava do som. Só depois é que soube que era o guitarrista Van Halen. E isso foi para mim à primeira parte do meu processo de aprendizagem, ou seja, aprender pelo que se ouve. Fui absorvendo naturalmente no dia-a-dia o som, tirando as notas de ouvido. Deste modo desenvolvi a percepção musical para um estágio em que eu tocava sem saber exatamente o que estava tocando. Comecei autodidata.
NOITE PONTO SOM – Quando chegou o momento em que você sentiu que precisava estudar teoria musical?
CÁSSIO NOBRE – Quando fui cada vez mais me interessando pela música e aprofundando o meu conhecimento sobre ela. Portanto fui estudar teoria mais a fundo, já que sentia necessidade de compreender essa parte musical. Então comecei a estudar sozinho. Contudo sempre trocava algumas idéias com os colegas sobre harmonia, acordes e solos, pois já desenvolvia esses esquemas na parte de improvisação com as escalas tiradas de ouvido.
NOITE PONTO SOM - Ou seja, aprendeu muitas coisas de ouvido, antes de estudar a parte teórica.
CÁSSIO NOBRE - Sim. Depois quando comecei a ler partitura senti a necessidade de ir para a escola de música da Ufba (EMUS). Entrei no curso de extensão e conclui as oficinas entrando no básico, mas não cheguei a terminá-lo. Ao todo fiz uns três anos de curso estudando violão. E durante algum tempo estudei contrabaixo acústico, mas foi por pouco tempo. Nesta época, desenvolvi tecnicamente, além da postura a parte teórica de escrita e leitura, coisas que eu não conhecia. Porém, a bagagem mais consistente do meu aprendizado foi tocando com os amigos, fazendo shows em bares, tirando músicas de ouvido em casa e também tocando muitas horas durante o dia. Essa época da escola foi muito boa, mas não foi à base principal, por isso, sempre falo que sou mais autodidata do que outra coisa.
NOITE PONTO SOM - Você chegou a fazer vestibular para música, já que alguns músicos se preparam nos cursos de oficina e básico para prestar o exame?
CÁSSIO NOBRE - Teve sim uma época em que pensei fazer vestibular para música, mas não fiz. Optei por fazer História. E durante o meu curso sempre direcionava as disciplinas para algo voltado para a área de cultura como história da cultura, cultura baiana, antropologia..... Essa é uma área que sempre tive interesse e, claro, sempre buscava temas próximos da música.
NOITE PONTO SOM – O seu trabalho final de curso voltou se para quê, já que a música sempre esteve com você?
CÁSSIO NOBRE - Foi sobre História de Cordel. Que em alguns casos são também cantadores e violeiros. Falei sobre essas pessoas.
NOITE PONTO SOM – E continuou pesquisando sobre música?
CÁSSIO NOBRE – Sim. Fiz mestrado em música na área de Etnomusicologia. O projeto voltou-se para pesquisar os violeiros de samba do recôncavo. No último trabalho em que participei, como membro da Associação Sócio-Cultural Umbigada, acompanhei a gravação de um CD e um DVD ("Cantador de Chula", a ser lançado em 2009) com mestres de sambas de rodas de comunidadestradicionais no Recôncavo. Também auxiliei na parte de gravação de áudio deste trabalho.
NOITE PONTO SOM – A sua pesquisa foi participante?
CÁSSIO NOBRE - Entrevistei o pessoal e conheci a vida das pessoas bem de perto. Deste modo acompanhei gravações de sambas de rodas e das comunidades tradicionais. Também coordenei a parte de gravação dando auxílio na parte técnica. Ou seja, tenho trabalhado mais como etnomusicólogo do que como músico.
NOITE PONTO SOM – Esses grupos que você observa são de que localidades do recôncavo?
CÁSSIO NOBRE - São de Simões Filho, Mar Grande na Ilha, Saubara, Santo Amaro, São Bras que é próximo de Santo Amaro chegando até Cachoeira, São Felix e Maragogipe. E têm alguns grupos que estão do outro lado do recôncavo, ou seja, entrando mais para o Sertão, nas áreas de Santo Estevão e Antônio Cardoso. Samba é o que não falta na Bahia, mas com esse estilo de recôncavo somente nestes lugares. E todos são ótimos.
NOITE PONTO SOM – Em seu trabalho a análise é do processo já acabado do CD ou, por exemplo, você vai lá e pesquisa como a música está se processando?
CÁSSIO NOBRE - È legal você ter perguntado isso. Pois algumas pessoas têm a idéia de que a música é fixa principalmente, quando se referem a esse grupos, comunidades e tradições, uma vez que é algo que vem de muito tempo atrás. Então imaginam que à música está sempre do mesmo jeito e que é imutável, mas na verdade é. No meu trabalho, uma das minhas observações, é justamente observar a questão da transformação musical. O que ocorre de mudança nessas comunidades? comparo os tocadores, violeiros e cantores mais velhos e avalio o que é que eles sabem, e o que a nova geração está aprendendo. E, atualmente, a coisa é bem difusa. Pois existe uma lacuna enorme nesta comparação, porque às vezes o mais velho não consegue transmitir a informação para nova geração. Essa “nova” geração que, por exemplo, toca viola está deixando de tocar esse instrumento para se dedicar ao cavaquinho. Pois é um pouco mais fácil, ou têm poucas cordas. Além disso, na maioria das vezes, eles ouvem bastante os grupos de pagodes que tem por aí. E dessa forma o primeiro instrumento da “nova” geração já é o cavaquinho mesmo que o avô dele seja violeiro. O elo do conhecimento e do instrumento já rompeu. Ou seja, antes a música era transmitida de forma tradicional, oralmente e agora não. E isso é um exemplo de transformação.
NOITE PONTO SOM – Você avalia que isso seja fruto do apelo midiático, já que rola uma massificação da música comercial baiana em algumas rádios e emissoras de TVs local?
CÁSSIO NOBRE - Com certeza. Tem um pesquisador (Ralph Waddey), que fez um trabalho nos anos 70, e que na naquela época conheceu muitos violeiros e sambadores bons que estavam em atividade, porém, muitas dessas pessoas já morreram. E muitos dos seus familiares saíram do interior, ou vieram para a capital perdendo-se assim todo o conhecimento tradicional e oral do samba. Atualmente, existe até um paradoxo porque se têm mais recursos para registrar, mas a comunicação entre as gerações é muito difícil até, por causa, da velocidade da informação. E sem falar no apelo midiático, que desperta interesse em seguir outros caminhos sendo isso um dos fatores de interferência nesse processo.
NOITE PONTO SOM – O modo de tocar é perceptivo se comparado entre a geração das antigas com a atual?
CÁSSIO NOBRE - A geração mais nova toca de uma maneira completamente diferente se for comparada com os mais antigos. Eles tocam coisas mais parecidas com o que está na mídia, diferente daquilo que era transmitido pelos tocadores tradicionais.

CÁSSIO NOBRE - O nome foi dado a partir de uma música feita com CH (baixista da banda Retrofoguetes que tocou também com Cássio na extinta banda Dois Sapos e Meio), e foi em uma temporada em que compomos muitas músicas. Essa música é dele. Eu fiz alguns arranjos, mas fiquei com ela na cabeça durante um tempão. Ela tem letra e fala sobre um lado real para se abrir para algo autêntico. A música não entrou no CD, mas acabei resolvendo colocar esse nome no disco.
NOITE PONTO SOM – Esse é um disco que conta com muitas participações?
CÁSSIO NOBRE – Sim. É um trabalho autoral com músicas minha e feito em parceria com outros músicos e compositores. Tem três músicas em parceria com CH, uma com Jonga Lima, (vocalista do grupo Coletivo Circo que dá Samba) e uma com Tito Bahiense (compositor e backing de Ivete Sangalo). O restante das composições é de minha autoria.

NOITE PONTO SOM - Esse disco foi uma junção de músicas de sua autoria que perpassou por várias fases?
CÁSSIO NOBRE - Sim. São músicas desde a época da banda Dois Sapos e Meio (1994-2001) até a feitura do disco. Foi uma necessidade de rever todo esse período de composições: como as coisas instrumentais que havia feito com a banda Volume Zero e de algo mais pesado da época dos Dois Sapos e Meio. Também de coisas minhas que eu criei com a viola desde 2000. Algumas músicas são de dez, doze anos atrás. Tem músicas do período em que morei na Espanha, na Holanda e na África (2003-2005). A mais recente é de 2005, quando nasceu minha filha Loa.

CÁSSIO NOBRE – Eu mesmo. Contei com o apoio de Jonga Lima e de Jorge Solovera (músico de estúdio) na parte da gravação. Solovera fez um trabalho de mixagem e remasterização muito bom, perfeito. Depois tive que fazer a coisa acontecer, ou seja, correr atrás de patrocínio, pois já estava com as músicas prontas, mas não tinha grana para lançar o disco. Fiz um projeto que primeiramente mandaria para o FazCultura, só que surgiu o edital do Banco do Nordeste para o programa de cultura. Mandei e o projeto foi aprovado. Em 2007 o disco foi lançando no teatro do Irdeb na TVE, e foi massa, porque, contou com a participação de muitos músicos, ou seja, da cantora Mariela Santiago, do saxofonista Roney Scott, do antológico baixista dos Novos Baianos Didi Gomes e de outras figuras. Do baterista Emanuel Venâncio, aliás, sempre quando vou tocar chamo ele, esse cara é punk! E CH também tocou. O show de lançamento contou com a participação de muitos dos músicos e intérpretes convidados no CD, além de outros amigos como Júlio Caldas e Lívia Mattos. No ano de 2008 fui chamado para fazer o III Festival BNB de Música Instrumental, um festival Itinerante, que rolou no Ceará e na Paraíba, nos centros culturais do próprio banco. Para irmos para lá conseguimos apoio da Fundação Cultural do Estado da Bahia para as passagens.
Para conhecer mais sobre o trabalho do músico acesse www.myspace.com/cassionobre
Créditos de fotos do músico em palco são de Ilo Alves, Velma Zehd e Monica Jurberg.